A importância da escolha da tipografia na era dos smartwatches


Já falamos no blog sobre UX para smartwatches e sobre como nós, UX Designers, devemos mudar nossa mentalidade “web” na hora de projetar experiências que acontecem nessa nova leva de relógios de pulso inteligentes.

Se você não leu o artigo acima, recomendo dar uma lida antes. (Vai lá, eu espero)

Se já leu, vou resgatar um princípio importante para desenhar interfaces para os smartwatches:

“A informação nunca foi tão fragmentada: Quando estiver pensando na quantidade de informação que vai exibir na tela de um relógio, pense qual é o mínimo necessário para que o usuário entenda o que está acontecendo na tela e consiga tomar uma decisão a respeito. Depois de pensar no mínimo possível, reduza ainda mais. Depois reescreva usando palavras mais curtas. Depois reduza mais um pouco.”

Pois é.

Acontece que quando o tamanho da tela é mínimo e quando o dispositivo foi projetado para que a informação seja consumida “em um piscar de olhos”, qualquer milissegundo a mais ou a menos pode fazer a diferença na experiência do usuário — especialmente porque o usuário vai olhar para a tela do relógio dezenas (ou centenas) de vezes no decorrer do dia.

O impacto da tipografia nas micro-experiências do usuário

Nesse novo contexto dos smartwatches, a interface precisa ser desenhada de forma a:

  • exibir somente o mínimo de informações necessárias para que o usuário saiba o que está acontecendo;
  • permitir que o usuário tome uma ação rápida em relação a isso;
  • e/ou ajudar o usuário a decidir se quer tirar o smartphone do bolso ou não para tomar uma atitude em relação a ela.

Mas nessa corrida contra o tempo pela atenção do usuário, qualquer milissegundo pode fazer a diferença na agilidade com a qual ele consome essa informação.

Imagine que o usuário está dirigindo e receba uma notificação no pulso: qualquer fração de segundos a mais pode ser decisiva na hora de tirar ou manter a concentração do usuário na atividade principal que ele está realizando ali.

Bom, desnecessário dizer que a escolha de fontes e tipografia pode ter um pacto relativamente grande nesse processo.

Desnecessário, mas necessário ao mesmo tempo.

O conceito de “glanceability”

Nós UX Designers amamos expressões em inglês, mas vou tentar traduzir essa. Glanceability (“ability to glance”), em português seria algo como Relancebilidade (“abilidade de ver de relance”). Horrível.

Na prática: a abilidade de bater o olho rapidamente em uma tela e entender o que está acontecendo ali.

Veja abaixo um estudo feito pelo jornal Ergonomics no ano passado, e divulgado recentemente pelo Gizmodo.

Os caras testaram a “relancebilidade” de dois tipos de fonte: uma chamada de Eurostyle, com uma cara um pouco mais digital, onde as formas das letras são um pouco mais quadradas e geométricas; a outra, já conhecida de muitos, Frutiger, um pouco mais arredondada e com curvas mais abertas.

Enquanto estavam dirigindo, os participantes do sexo masculino levaram 10,6% menos tempo para ler informações escritas com Frutiger do que com Eurostyle. Para as mulheres, a escolha tipográfica não teve impacto significativo no tempo de leitura. E a diferença se acentuou quando o fundo da tela era preto ao invés de branco.

A relação entre relancebilidade e os relógios inteligentes

No contexto dos relógios, essa diferença no tempo de leitura fica ainda mais importante. A própria Apple convencionou chamar os pequenos snippets de informação exibidos no Apple Watch de “Glances”.

Nesses casos de uso, além da escolha de fonte, outros aspectos da tipografia têm um impacto importante no tempo de leitura. Um exemplo é o espaçamento entre caracteres, que segundo o Dr. Nadine Chahine (type designer na Monotype) “se torna incrivelmente importante, já que nossos cérebros são tão sensíveis às ‘letras fantasmas’ formadas nos espaços negativos quanto às letras de verdade”. E completa dizendo que “cada milímetro de espaçamento pode ter impacto gigante em legibilidade”. O assunto foi até tema de palestra no SXSW desse ano.

É óbvio que não existe uma fórmula mágica (nesse momento os leitores que vieram até esse post esperando saber qual tipografia devem usar em smartwatches fecham a aba do navegador), mas o fato dos relógios inteligentes estarem se tornando mais populares dia após dia vai contribuir muito com o aprendizado da disciplina de Design sobre esses pontos.

A lição é: se você é o tipo de designer que escolhe fontes baseado apenas no que “está na moda” ou não, talvez seja a hora de começar a pensar melhor no impacto dessa decisão na experiência dos seus usuários — ainda mais em uma época onde 1. a informação nunca esteve tão fragmentada e 2. o tempo e a atenção dos seus usuários nunca foram tão escassos.


Originally published at arquiteturadeinformacao.com on May 7, 2015.

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